Pense no último filme a que você assistiu. Agora, faça uma estimativa de quantos nomes apareceram nos créditos. Embora seja difícil fazer uma precisão de quantas pessoas estão envolvidas na produção de um longa-metragem, é quase certo que, para que o projeto pudesse sair do papel, uma equipe numerosa teve que ser escalada. Mas quem são as pessoas por trás desses nomes? A diversidade no cinema existe?

Uma pesquisa feita pelo IBGE em 2014 constatou que 54% da população brasileira se declarava negra ou parda, enquanto 45% se considerava branca. Apesar de esses números apontarem um grande percentual de afrodescendentes, no cinema o cenário é outro: a participação de pessoas negras é minoria. Entre 2002 e 2014, o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa – Gemaa, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, fez um levantamento para descobrir qual era o gênero e a raça dos profissionais de cinema envolvidos nos filmes de maior bilheteria naquele momento. O resultado? A diversidade no cinema é pouca: a presença de homens brancos é maioria nos cargos disponíveis; já as mulheres negras estão ausentes no roteiro e na direção.

A diretora do filme Amores Urbanos (2016), Vera Egito, acredita que a falta de diversidade no cinema pode ser considerada um obstáculo para a construção de uma sociedade mais justa. A cineasta diz que “a grande revolução se dará quando o discurso estiver na mão de todos”, já que “a equidade de uma sociedade vem da igualdade de discurso, quando todos podem ocupar um lugar de fala”.

Para Joyce Prado, diretora do curta Fábula de Vó Ita (2015) e fundadora da Oxalá Produções, a falta de mulheres negras nas produções faz com que as espectadoras tenham poucos exemplos a seguir, o que afeta sua forma de encarar a vida. “É muito importante você ter referências de protagonistas feministas para que as meninas e mulheres possam se ver. Quando você não coloca isso na tela, não mostra para aquela menina que as coisas podem ser diferentes daquilo que ela está vendo dentro de casa. Isso pode ser considerado abusivo, não no sentido agressivo, mas no sentido da mulher sem opções, sem escolhas de mudança da própria vida”, diz Joyce.


Se sua narrativa é composta por pessoas, qual é o problema de ter uma mulher negra? Até se é algo que não esteja dentro do real, como uma ficção do futuro, por que não ter pessoas negras? Nós conseguimos imaginar animais super estranhos, mas não conseguimos imaginar uma mulher negra normal  – Stephanie Ribeiro, blogueira feminista

No Brasil, o chamado cinema negro vem ganhando espaço por intermédio de curtas-metragens como O Dia de Jerusa (2014) – selecionado para a mostra de curtas do Festival de Cannes 2014 Kbela (2015) e Aquém das Nuvens (2012). Em entrevista para a Agência Brasil, em 2015, a professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro – IFRJ e doutora em história Janaína Oliveira disse que o cinema negro no Brasil é feito majoritariamente por mulheres, que, de uma maneira geral, ainda têm público restrito.

Para ela, uma maneira de aumentar o número de espectadores seria formar redes de distribuição dos filmes e promover debates sobre eles. “É ir além da exibição. As novas imagens têm que chegar às salas de aula, criar aderência. Além de mais editais, mais parcerias e a presença do Estado, que facilita a produção e a circulação”, defende.

Outro segmento que luta por mais diversidade no cinema é o indígena. Em outubro de 2016, São Paulo recebeu a Bienal do Cinema Indígena, um evento dedicado a filmes produzidos por indígenas. Nessa edição, dos 53 filmes dirigidos por índios, 11 foram feitos por mulheres. Entre as produções assinadas por elas estavam Wehsé Darasé – Trabalho da Roça (2016), de Larissa Ye’padiho Duarte, que fala sobre a agricultura no Rio Negro a partir do olhar de uma mulher da etnia tukano; e Voz das Mulheres Indígenas (2015), de Glicéria Tupinambá e Cristiane Pankararu, que relata a luta das mulheres indígenas contra os valores patriarcais.


Por que eu não posso ser indígena e interpretar uma advogada ou a dona do casarão? A gente tem sofrido muito com esse preconceito. Eu posso ser tudo que eu quiser, desde que eu saiba o meu valor cultural e não deixe isso acabar – Zahy 
Guajajara, atriz 

Se no cinema indígena as mulheres estão aos poucos conquistando mais espaço na direção, nos filmes nacionais de grande bilheteria ainda não é possível estimar quantas mulheres indígenas atuam como diretoras. Na pesquisa do Gemaa, não há nenhuma menção à participação das mulheres que vêm de comunidades tradicionais.

Já no quesito atuação, é possível citar alguns nomes de atrizes de origem indígena. Em Tainá (2001), temos a jovem Eunice Baía, descendente dos índios da tribo baré, e em Xingu (2011), Adana Kambeba, da etnia kambeba. Em ambos os casos, as atrizes interpretaram personagens indígenas.

Tainá (2001)

A atriz e ativista indígena Zahy Guajajara diz que, embora seja muito grata por todos os papéis que já desempenhou – ela atuou na minissérie Dois Irmãos (2017) e no filme A Curva do Rio Sujo (2017) – gostaria que tivesse mais diversidade no cinema para poder interpretar uma personagem que não fosse necessariamente indígena. “Por que eu não posso ser indígena e interpretar uma advogada ou a dona do casarão? A gente tem sofrido muito com esse preconceito. Sou uma indígena urbanizada, moro no Rio de Janeiro, estou estudando, vou fazer cinema, escrevo poesias, canto… Eu posso ser tudo que eu quiser, desde que eu saiba o meu valor cultural e não deixe isso acabar”, afirma.

A grande revolução se dará quando o discurso estiver na mão de todos, a equidade de uma sociedade vem da igualdade de discurso, quando todos podem ocupar um lugar de fala – Vera Egito, diretora

Essa questão do pouca variedade de papéis também atinge atrizes negras, de acordo com a blogueira feminista Stephanie Ribeiro. Ela afirma que as pessoas permanecem na zona de conforto, ou seja, já partem do pressuposto de que sabem o que é ser negro e, assim, acabam representando personagens estereotipados, “reafirmando uma lógica que não é positiva”.

“Se sua narrativa é composta por pessoas, qual é o problema de ter uma mulher negra? Até se é algo que não esteja dentro do real, como uma ficção no futuro, por que não tem pessoas negras? Nós conseguimos imaginar animais superestranhos, mas não conseguimos imaginar uma mulher negra normal”, diz Stephanie.

Em uma entrevista deste ano para o site Brasileiros, Yasmin Thayná, diretora do curta Kbela (2015), diz que essa quebra e o aumento da diversidade no cinema só irá acontecer quando as mulheres negras também estiverem atrás das câmeras. “A realizadora negra, quando retrata algo da sua cultura, da sua história, fala de um lugar dela. Quando é uma mulher, um realizador não negro, ela fala de um olhar sobre alguém. Isso faz total diferença, porque um código de pertencimento, para uma pessoa não negra, não vai fazer tanta diferença como para uma pessoa negra. Aquilo significa a humanização da prática, às vezes, pequena”, afirma a cineasta.

 


Diversidade no cinema para além do eixo Rio-SP

Um levantamento feito pelo Close Nelas analisou diversidade no cinema nacional de acordo com as 10 melhores bilheterias de cada ano, desde 2012 a 2015. De 40 filmes,  apenas 5 tinham personagens femininas fora do eixo Rio/SP. Alguns destaques são: Faroeste Caboclo (2013), Somos Tão Jovens (2013) – personagens de Brasília –, e O Concurso (2013), uma personagem do Nordeste.

Se Eu Fosse Você (2006) foi um dos filmes de maior sucesso naquele ano e toda a história de passa no Rio de Janeiro

Para a diretora pernambucana Marja Pugliesi, o cinema nacional vem explorando muito bem a força das mulheres nordestinas, retratando-as de “uma maneira muito admirável“ em filmes como Que Horas Ela Volta? (2015) e Aquarius (2016). “Toda nordestina tem uma heroína dentro de si. O drama, o apego, o calor humano, o amor pelos filhos são características que me encantam nessas mulheres”, afirma.

Por sinal, a temática da nordestina batalhadora, que enfrenta as adversidades do meio em que vive, é uma constante no cinema nacional. Ela pode ser vista, por exemplo, em filmes como Eu Tu Eles (2000) e O Caminho das Nuvens (2003). No entanto, para Joyce, nem sempre essa abordagem é sinônimo de empoderamento. “Apesar de eles quererem mostrar que aquela mulher ali tem um poder de decisão, na realidade toda aquela situação está ligada a uma necessidade financeira. É tudo meio dúbio. Constrói uma mulher que tem poder de escolha, mas, na verdade, ela não tem.”


Festivais internacionais girl power

No mundo inteiro, mulheres de diferentes etnias, religiões e nacionalidades produzem e procuram aumentar a diversidade no cinema. Com o intuito de valorizar os trabalhos dessas diretoras, atrizes, produtoras, foram criados festivais de cinema voltados para filmes produzidos por mulheres ou protagonizados por mulheres. Segundo o Hollywomen, site que aborda a participação feminina no cinema e na mídia, existem, atualmente, 115 festivais desse tipo.

O Afeganistão, por exemplo, desde 2013, recebe o Afghanistan International Women Film Festival, evento em que são exibidas produções feitas no país, na Rússia e na Índia, entre outros. Em 2015, o filme vencedor foi o iraniano “فصل فراموشی فریبا” (Oblivion Season), que conta a história de Fariba (Sareh Bayat), uma ex-prostituta que, após se casar com seu amado, tem que lidar com a falta de liberdade imposta pela sociedade machista.

Oblivion Season (2015)

Já na cidade de Johannesburg, na África do Sul, o Mzansi Women Film Festival é realizado anualmente em agosto, desde 2013. O evento é inspirado na Marcha de Pretoria (1956), protesto em que mulheres do país inteiro se juntaram para lutar contra o apartheid, sistema que não deixava negros frequentarem os mesmos espaços que os brancos. De acordo com o site do festival, o evento tem como objetivo “celebrar o trabalho cinematográfico de mulheres e sobre mulheres de todo o mundo” e “educar, informar e entreter as audiências em relação a questões políticas e econômicas que impactam as mulheres mundialmente”.

Outro festival voltado para trabalhos com forte presença feminina é o Asian Women’s Film Festival. A ideia do evento, que reúne desde animações até documentários, é dar visibilidade a diretoras de origem asiática. Na edição de 2016, por exemplo, foram selecionadas produções de Bangladesh, Israel, Japão, Mianmar, Coreia do Sul, Taiwan, Síria, Turquia, Reino Unido e Vietnã.

Aqui no Brasil também existem festivais que focam em produções feitas por mulheres, um deles é o Fincar. A primeira edição do Festival Internacional de Cinema de Realizadoras foi realizada este ano, no Recife. O evento teve 30 obras, de 19 países, entre eles, Canadá, Argentina e Brasil. De acordo com o site, “para o festival, interessa a realização que acontece geograficamente descentralizada” e “a internacionalidade é entendida como uma ponte que respeita as singularidades das obras, das autoras e dos locais de exibição”.