Você já pensou que o cinema pode ser uma boa ferramenta para o empoderamento feminino?

No Brasil, o cinema chegou em 1898 com Affonso Segretto. Um homem. Nas décadas de 1910 e 1920, o cinema brasileiro teve como nomes de destaque João Stamato (Dançarina Descalça, 1907) e Francisco Santos (O Crime dos Banhados, 1914). Dois homens.

Passados 33 anos da chegada do cinema ao Brasil, em 1931, Cléo de Verberena assumiu o posto de primeira cineasta mulher do Brasil. Outra pioneira? Kátia Coelho, a primeira brasileira a dirigir a fotografia de um longa-metragem. Seu filme, Tônica Dominante, foi lançado em 2000, ano em que Edgar Brasil, considerado o patrono dos diretores de fotografia brasileiros, comemoraria, se estivesse vivo, 69 anos do lançamento de seu primeiro filme, Limite (1931).

As discussões sobre a presença (ou ausência) de mulheres atrás das câmeras continuam após os anos 2000. Em julho de 2016, o Festival de Cinema de Gramado liberou a lista de concorrentes ao prêmio de melhor longa-metragem do ano. Dos seis filmes indicados, Barata Ribeiro, 716, El Mate, Elis, O Roubo da Taça, O Silêncio do Céu e Tamo Junto, nenhum havia sido dirigido por uma mulher.

Hoje, existem diversas iniciativas para mudar esse cenário. Elas propõem estudar, avaliar e exaltar as mulheres que estão atrás e na frente das câmeras. No Brasil, por exemplo, temos grupos como o Coletivo Vermelha, um time de diretoras e roteiristas que discute e promove eventos sobre o papel da mulher no cinema, e o Edital Carmen Santos, uma iniciativa do Ministério da Cultura em parceria com a Secretaria Especial de Políticas Para as Mulheres, que incentiva produções feitas por mulheres. No edital de 2013, a maioria das inscritas era de São Paulo, com 139 pessoas, seguido pelo Rio de Janeiro (76), Minas Gerais (35), Rio Grande do Sul (29) e Bahia (22).

Mesmo iniciativas que não têm como foco principal a questão de gênero realizam ações que visam o empoderamento e dar espaço para as mulheres brasileiras no cinema. É o caso, por exemplo, do Spcine, que apoia o desenvolvimento do audiovisual na cidade de São Paulo. A coordenadora de inovação do projeto, Malu Andrade, cita como exemplo de ação o documentário Precisamos Falar do Assédio (2016), que teve apoio institucional da iniciativa. Na Semana da Mulher de 2016 uma van-estúdio parou em nove locais de São Paulo e do Rio de Janeiro e ouviu depoimentos de mulheres que já sofreram algum tipo de assédio. Ao fim, foram colhidos relatos de 140 mulheres entre 14 anos e 85 anos, de áreas periféricas e nobres das cidades. O documentário mostra 26 desses depoimentos.

Malu explica, ainda, que o Spcine “dá apoio institucional ou financeiro para eventos ligados à temática feminista”. Um desses eventos, entre outros que mencionamos em nossa pauta de diversidade,  foi o Quem Tem Medo das Mulheres no Audiovisual?, feito em parceria com o Coletivo Vermelha, responsável por reunir, entre os dias 17 e 20 de março de 2016, 27 profissionais do cinema dispostas a falar sobre a situação atual da mulher no cinema. “Nós apoiamos e fizemos investimentos para trazer diretoras de fora de São Paulo”, conta Malu.

Fora do Brasil, não faltam projetos voltados para o empoderamento de profissionais de cinema. Nos Estados Unidos, mais precisamente na Universidade de San Diego, na Califórnia, há o Center for the Study of Women in Television and Film (Centro para o Estudo de Mulheres na Televisão e no Cinema), que se dedica a realizar pesquisas sobre a participação feminina. O centro é responsável, por exemplo, pelo maior estudo sobre a presença das mulheres em filmes independentes.

rp_mayra-150x150.pngNós temos que formar e informar, temos que investir na educação. Com o debate e com o assunto sendo trazido à luz, podemos mostrar às próximas gerações que determinados comportamentos não são legais – Mayra Lucas, produtora

Já na Espanha, as profissionais de cinema têm o apoio da CIMA, Asociación de Mujeres Cineastas y de Medios Audiovisuales (Associação de Mulheres Cineastas e de Meios Audiovisuais). A instituição tem a participação de 300 mulheres ligadas ao mundo do audiovisual. São diretoras, atrizes, produtoras que, segundo o site oficial da associação, lutam para “fomentar uma presença igualitária das cineastas e profissionais do setor, contribuindo para uma representação equilibrada e realista da mulher dentro dos conteúdos oferecidos pelo meio”.

Fonte: pesquisa do site Polygraph – “Diálogos em Filmes” e pesquisa do Geena Davis Institute on Gender Media


Empoderamento à la século 21

De uns tempos para cá, os números vêm mostrando que a sociedade, de maneira geral, está discutindo com mais frequência temas como igualdade de gênero, representatividade e empoderamento da mulher. Em 2015, por exemplo, o site feminista Think Olga e a Agência Ideal fizeram um estudo sobre empoderamento feminino e descobriram que, no Google, a expressão tinha sido buscada cerca de 18 mil vezes em 2015, enquanto, em 2014, o número de buscas não tinha passado de 3.960.

Além disso, a popularidade de movimentos como #meuamigosecreto, #agoraéquesãoelas e #askhermore levaram o Think Olga a apelidar o ano de 2015 de “Ano do feminismo na internet”.

Segundo Malu Andrade, esse aumento do interesse por questões de gênero tem grande impacto no cinema. Ela diz que, com a influência e a abrangência das redes sociais, as profissionais estão falando mais abertamente sobre as diferenças de tratamento dado a homens e mulheres na indústria.

“Acho que hoje a gente tem mais facilidade de ter voz, de se colocar. A quantidade de informação nas redes sociais ajuda a fazer com que as diferenças entre homens e mulheres sejam expostas. Quando a Jennifer Lawrence viu que o salário dela no filme Trapaça (2013) era bem menor do que o do seu parceiro de cena, Bradley Cooper, ela questionou”, lembra Malu, fazendo referência ao texto “Why do I make less than my male co-stars?” (“Por que eu ganho menos do que os meus parceiros de cena?”), no qual a atriz questiona por que teve um cachê menor do que o dos atores homens que desempenharam papéis que tinham quase a mesma relevância que o dela.

Muitas vezes, a gente recebe personagens femininos que são sombras de mulheres ou personagens que ficam com um papel atribuído às mulheres, como a gostosa, a gatinha que o cara pega, que são estereótipos e aspectos superficiais, e desses papéis ainda existem muito no mercado – Rita Carelli, atriz

Para além da questão profissional, algumas pessoas defendem que, nos últimos anos, a forma como a mulher é retratada nas telas também tem mudado. Segundo a atriz Karine Teles, de Que Horas Ela Volta? (2015), ”estão surgindo bons filmes que não retratam a mulher apenas como um objeto”. De acordo com a atriz, essas novas mulheres são personagens empoderadas, pois “são retratadas de maneira complexa, com várias camadas, personalidade bem desenvolvida…”.

Como exemplo de representação progressista da mulher, a atriz cita os filmes Que Horas Ela Volta?, que fala sobre a relação entre uma empregada, a filha dela e a patroa, e O Quarto de Jack (2015), que conta a história de uma mãe que fica presa com o filho.

No entanto, a atriz Rita Carelli explica que, atualmente, papéis de mulheres empoderadas ainda não são comuns no mercado, já que a maioria dos diretores e roteiristas são homens, assim os personagens masculinos se transformam “naturalmente em alter ego deles”. “Muitas vezes, a gente recebe personagens femininos que são sombras de mulheres ou personagens que ficam com um papel atribuído às mulheres, como a gostosa, a gatinha que o cara pega, que são estereótipos e aspectos superficiais, e desses papéis ainda existem muito no mercado”, conta.


Mudanças à vista?

O cinema, aliás, se apega tanto a esses estereótipos das mulheres que a evolução de uma personagem feminina raramente acontecia nas telonas, como Ann Kaplan exemplifica no livro Women in Film: Both Sides of the Camera. Isso porque, se nos anos 1940 e 1950, a mulher sensual só poderia ser má, como uma femme fatale, nos anos 1960 isso muda e não demora muito para que a personagem seja punida por querer viver livremente.

Mais uma vez, a mulher apenas pode viver no mundo preto e branco: ou ela é boa e pura e serve de apoio ao personagem masculino, ou ela é sensual e acaba sendo castigada por isso.

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É exatamente por causa dessa percepção, segundo Ann Kaplan, que a mulher acaba em segundo plano em quase todos os filmes dessas décadas. Isso muda apenas nos anos 1980, com a revolução feminista a todo vapor, na qual temos personagens femininas fortes, como Sarah Connor, de O Exterminador do Futuro (1984), e Anne Lewis, em RoboCop (1987).

Depois desse pontapé inicial, há quem diga que as mulheres conquistaram cada vez mais papéis de destaque no cinema. Duvida? Avancemos, portanto, para 2015, no qual um levantamento mostra que a participação das mulheres como protagonistas em filmes vem aumentando. “It’s a man’s (celluloid) world: portrayals of female characters in the top 100 films of 2015” (“É um mundo (celuloide) masculino: retratos de personagens femininos nos 100 filmes de maior bilheteria de 2015”) constatou que 22% das produções hollywoodianas foram protagonizadas por mulheres. Se comparado com o ano de 2014, em que a porcentagem de protagonistas femininas não passou dos 12%, isso representa um aumento de 10% na participação.

No entanto, para algumas profissionais do meio, esses números não necessariamente demonstram que estamos vivendo um momento de avanços e empoderamento. Manoela Ziggiatti, diretora e membro do Coletivo Vermelha, diz que se deve ter cuidado quando a mídia diz que determinado filme é um exemplo de empoderamento feminino. Para ela, filmes como Mad Max: Estrada da Fúria (2015), que mostra mulheres fortes e batalhadoras, são superestimados. “Acho que é um pouco ‘me engana que eu gosto’. Existe um olhar que continua sendo um olhar do homem, mesmo que tenha uma mulher por trás. No Mad Max, por exemplo, temos todas aquelas mulheres que, apesar de serem prisioneiras, são todas bonitas, esbeltas. Que homem não gosta de ver uma mulher que luta, que transpira?”

Quando quem tem o poder de decisão representa uma minoria ou compõe uma   diversidade, o resultado será diverso, porque é outro olhar, outro sentimento sobre isso – Vera Egito, diretora

Ao mesmo tempo, o fato de elas aparecerem nas telas não necessariamente significa que elas estejam falando. O site Polygraph, por exemplo,  analisou 2 mil roteiros dos filmes de maiores bilheterias nos EUA desde 1980 e descobriu que a  maioria dos diálogos são de personagens masculinos. A pesquisa mostrou que, em 1206 filmes de diversos gêneros, as porcentagens de diálogos de homens variava entre  60 e 90%. Enquanto isso, apenas 173 longas tinham mais de 60% das falas ditas por mulheres.


Medidas

Como mudar esse cenário e avançar no empoderamento? Muitas profissionais defendem que uma das mudanças necessárias é compor bancas de festivais mais diversas, já que isso acarretaria em projetos com temáticas diferentes do comum.

 “Quando quem tem o poder de decisão representa uma minoria ou compõe uma diversidade, o resultado será diverso, porque é outro olhar, outro sentimento sobre isso. Agora, isso não garante que só porque tem uma mulher trans na banca, por exemplo, eles vão selecionar um projeto trans. Talvez não. Mas certamente ele foi visto com mais cuidado, ou, no mínimo, com mais entendimento”, diz Vera Egito, diretora de Amores Urbanos (2016).

Além disso, um estudo feito, em 2015, pela Superintendência de Análise de Mercado da Ancine, descobriu que, quando há mulheres em cargos de chefia, a tendência é que haja mais mulheres nas equipes. Quando a função de produção é executada por uma mulher, aumenta em 33% a chance de a função de direção também ser executada por uma mulher, de acordo com a análise.

Em Amores Urbanos, por exemplo, todos os cargos de direção foram ocupados por mulheres. Vera explica que isso foi um processo natural e não pensado de antemão. “Quando tem uma mulher tomando as decisões, ela vai chamar pessoas com quem se identifica e naturalmente vai ter mais mulheres. Pelo mesmo motivo que os projetos liderados por homens têm mais homens”, conta.

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Amores Urbanos (2016)

Para além dos sets de cinema, a produtora Mayra Lucas, de filmes como Loucas pra Casar (2015) e Odeio o Dia dos Namorados (2013), aponta que uma solução para acabar com as diferenças entre homens e mulheres no cinema seria o investimento na base para ocorrer o empoderamento feminino. “Nós temos que formar e informar, temos que investir na educação. Com o debate e com o assunto sendo trazido à luz, podemos mostrar às próximas gerações que determinados comportamentos não são legais. Nós temos a obrigação de formar as novas gerações para que elas não reproduzam os vícios das gerações antigas.”