Apostamos que esta não é a primeira e nem será a última vez que você verá ou escutará essa fala, extraída do filme de comédia A Mulher Invisível (2009).

Filmes de humor costumam fazer bastante sucesso no cinema nacional. Um estudo realizado pela Ipsos Connect constatou que as mulheres brasileiras representam 51% do público de cinema. De todos os gêneros, um dos favoritos do público feminino, segundo o levantamento, são as comédias românticas [1] (68%) e as comédias (62%). No Brasil, o orçamento do filme de comédia fica em torno de 5 milhões de reais, sendo que, quando conseguem chamar a atenção do público, podem atrair mais de um milhão de espectadores, número alto para o padrão do mercado cinematográfico brasileiro.


Mercado e distribuição

A CEO da Glaz Entretenimento e produtora dos filmes Odeio o Dia dos Namorados (2013) e Vai Que Cola (2015), Mayra Lucas, explica que o maior interesse do mercado por esse gênero se deve à longa tradição da comédia no país “O Brasil tem sua própria dramaturgia cômica, que remonta ao teatro antigo, ao teatro de revista. É um gênero muito tradicional no Brasil, tem mais de cem anos de desenvolvimento intelectual em cima, ao contrário de terror, ficção científica, ação.”

E não para por aí. Para ela, o filme de comédia tem mais uma vantagem em relação aos outros gêneros: o baixo custo: “A gente tem um teto orçamentário médio de 7 milhões de reais no Brasil. Como você vai fazer um filme de herói ou policial? Estamos restritos a produções que não custem caro: drama e comédia. Como o drama é um gênero que a TV e os seriados ocuparam muito bem nos hábitos da população em geral, o drama para cinema foi caindo de rendimento”, explica.

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O teatro de revista era um espetáculo que misturava humor com números musicais

O filme de comédia, aliás, tem influência no aumento do público das produções nacionais, já que, em 2014, de acordo com o portal Filme B, o gênero conquistou uma fatia de 12,4% do mercado total. Mas, para Malu Andrade, coordenadora do projeto de política de gênero do Spcine – iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura da capital paulista e do Governo do Estado de São Paulo – o público não está apenas interessado nesse tipo de produção, uma vez que, nos circuitos de filmes que realiza nos Centros Educacionais Unificados – CEUs, a resposta que recebe é outra.

Vamos explicar: nesses eventos, a organização tenta diversificar os filmes, exibindo blockbusters e produções mais autorais. De acordo com Malu, ambos recebem grande número de espectadores: “Nós temos relatos de pessoas que nunca foram ao cinema ou de pessoas que não vão há mais de dez anos – e nós estamos falando das classes C e D. Quando dizem que o público não se interessa, é porque você só está oferecendo um determinado tipo de filme”, afirma.

A gente sempre vai marcar filmes na sala antes de lançar e sempre vem aquelas perguntas: “Mas é com quem? É comédia? É global? O que vai trazer ao público?” – Karine Teles, atriz e roteirista 

Outro fator que ajuda a explicar o sucesso das comédias é a distribuição pelas salas de cinema do país. Uma das maiores dificuldades para os profissionais do cinema nacional é o modo como as produções são lançadas. “Os exibidores deixam os filmes muito pouco tempo em cartaz”, diz Vera Egito, diretora de Amores Urbanos (2016). “As distribuidoras têm muito pouco jogo e comprometimento com aquela obra específica, não importa o filme. Se o seu filme ficou uma semana, eles já colocam outro, para o dinheiro girar. Isso precisa ser resolvido.”

Esse ponto afeta, também, produções de outros gêneros. Atriz do filme Que Horas Ela Volta? (2015), Karine Teles reclama que o mercado mede o sucesso de um filme apenas pela quantidade de espectadores, sem levar em conta a temática. “A gente vai marcar filmes na sala antes de lançar e sempre vêm aquelas perguntas: ‘Mas é com quem? É comédia? Tem global? O que vai trazer o público?’. Não é isso. É um filme interessante do qual as pessoas que assistirem vão gostar para caramba e vão querer ver e falar para os amigos.”

Eu resisto muito quando alguns jornalistas falam sobre comédia como se fosse um gênero menor. É tão difícil fazer comédia, fazer o espectador rir, fazer uma comédia inteligente – Julia Rezende, diretora e roteirista 

A falta de acesso do público a diferentes produções se dá, de acordo com a doutora em comunicação social Roberta Gregoli, pelo controle dessas produções por grandes empresas, que dominam essa fatia do mercado: “Tem essa grande corporação que é a Globo Filmes, que tem o braço da TV que ajuda muito, que faz propaganda do filme e leva mais espectadores para o cinema”.


Representatividade

A diretora do documentário Pulsações (2011), Manoela Ziggiatti, critica a superficialidade de alguns roteiros de filme de comédia. “É confortável para quem produz, porque já sabe que existe um público condicionado a gostar daquilo e consumir aquilo, e é confortável para quem vai assistir, porque já sabe o tipo de entretenimento que está comprando.”

Julia Rezende, diretora e roteirista de Meu Passado Me Condena (2013), discorda e defende as comédias, que muitas vezes são vistas de forma depreciativa. “Eu não acredito em uma coisa estrategista. Às vezes, parece que as pessoas pensam: ‘Ah, vamos fazer uma comédia porque vai dar público e vai dar dinheiro’. Há muitas comédias que não conseguem obter sucesso.” Kátia Coelho, diretora de fotografia, concorda com a perspectiva de Júlia e ainda complementa que  não sabe “se existe um cinema confortável, que dá lucro.” 

 

As comédias têm estereótipos extremos para ter a questão do riso, mas aí eu fico me perguntando: ‘homens também não tem estereótipos? – Stephanie Ribeiro, ativista feminista 

 

Brasil X Mundo

De uns tempos para cá, o número de mulheres protagonistas tem aumentado de forma significativa, tanto no Brasil como no exterior. Em Hollywood, Missão Madrinha de Casamento (2011) e A Mentira (2010) são algumas das comédias protagonizadas apenas por mulheres. “Nos EUA, há um evento em que todas as distribuidoras se reúnem e passam os trailers dos próximos filmes, e uma coisa que notei é que pelo menos 70% dos filmes são protagonizados por mulheres”, diz a produtora Mayra Lucas.

A pesquisa “Gender bias without borders” (“Viés de gênero sem fronteiras”), feita pelo Instituto Geena Davis, em 2014, analisou a representação e a participação feminina no cinema em 11 países, incluindo o Brasil. De acordo com os resultados, quando comparado com a média do mercado (30,9%), as personagens femininas estão mais presentes em filme de comédia (32,8%) e drama (34,2%).

Outra pesquisa, “Presença feminina no cinema brasileiro nos anos 2000”, feita por Paula Alves, mostra que as protagonistas femininas no cinema nacional aumentaram ao longo dos anos. Em 2000, eram 18,4%; já em 2009, o número sobe para 24,4%.

No Brasil, há comédias que, além de ser protagonizadas por mulheres, fogem da lógica “casa, família e filhos”. No filme Mulheres no Poder (2015), por exemplo, o País é comandado politicamente, em sua maioria, por mulheres. A produtora do filme, Lara Pozzobon, explica que as personagens femininas assumem a cultura machista para trazer ao debate a questão da representação da mulher e da política brasileira. “O filme deixou muita gente confusa, pois embaralha os papéis e joga na mesa todas as nossas mazelas. Acredito que ele chame as pessoas à reflexão, mostrando todos os fios que nos amarram, sem se pretender feminista, tampouco sendo machista.”

gif do filme de comédia Mulheres no Poder

Mulheres no Poder (2015)

Em De Pernas pro Ar (2010), a personagem de Ingrid Guimarães é uma workaholic que coloca a família em segundo plano. Já em Loucas pra Casar (2015), também protagonizado por Ingrid, a mulher é retratada como uma pessoa bem-sucedida e dedicada. Mayra Lucas, produtora do filme, explica que foi um desafio o processo de “quebrar estereótipos”. “Você precisa que a sociedade vá como massa assistir ao seu filme. Você tem que ter uma mensagem para passar, fugir de estereótipos, mas sem fugir dos clichês. Você tem que reverter os clichês. É mais difícil fazer isso porque você lida com o inconsciente coletivo que já está formado. Ao mesmo tempo, não adianta fazer um libelo feminista, porque ninguém vai assistir. Se ninguém viu, você não passou mensagem nenhuma. Você só está com a consciência tranquila.”

gif de filme de comédia Loucas pra Casar

Loucas Pra Casar (2015)

Mas nem para todo mundo essa quebra da expectativa, mantendo os clichês, é o suficiente. Stephanie Ribeiro, blogueira e ativista do movimento feminista negro, diz que essa atitude no filme de comédia continua perpetuando estereótipos de mulheres e negros. “As comédias têm estereótipos extremos para ter a questão do riso. Mas aí eu fico me perguntando: ‘Homens também não têm estereótipos?’. Os estereótipos extremos geralmente são de mulheres loucas, ciumentas, barraqueiras, desesperadas para casar, mães briguentas… As comédias geralmente partem do estereótipo do ápice e os homens nunca estão nesse ápice, eles nunca são tão zoados. No fim, ele sempre é o mocinho.”


Protagonismo 

Uma dúvida, no entanto, permanece: o aumento no número de protagonistas femininas em filme de comédia está ocorrendo por causa das queixas em relação à falta de representatividade ou porque o mercado viu uma possibilidade de lucrar com o boom dos debates sobre gênero?

Para Malu, do Spcine, não dá para saber ao certo. No entanto, ela acreditar que o mercado está tirando proveito disso sem sair da zona de conforto. “O que faz sucesso? Comédia. Eles sabem porque tem pesquisa feita. Quem leva público ao cinema? Mulher, muito mais que o homem. Quando vemos um casal de namorados, geralmente quem escolhe o filme é a mulher. Isso vem de pesquisas qualitativas e quantitativas. Então, eles inserem uma protagonista feminina, que, muitas vezes, reproduz a visão machista da sociedade. Não muda nada”, conclui.

Você tem que ter uma mensagem para passar, fugir de estereótipos, mas sem fugir dos clichês. Ao mesmo tempo, não adianta fazer um libelo feminista, porque ninguém vai assistir – Mayra Lucas, produtora 

Porém, há quem não concorde com esse ponto de vista. A diretora Julia Rezende acredita que é um problema generalizar o filme de comédia como reprodutor de estereótipos e que tudo depende do olhar de quem está por trás das câmeras. “Eu resisto muito quando alguns jornalistas falam sobre comédia como se fosse um gênero menor. É tão difícil fazer comédia, fazer o espectador rir, fazer uma comédia inteligente. Nós temos tantas referências de cineastas incríveis que fizeram filmes de comédia que são referências até hoje. Acho que são nessas fontes que nós temos que beber. De que maneira a gente quer se colocar artisticamente, politicamente?”

Seja como for, a representação feminina, na frente e atrás das câmeras, está aumentando. “Nós estamos vivendo um momento em que a mulher ganha o seu próprio dinheiro. Por que ela vai comprar o ingresso para ver um monte de homem? Filme de homem virou 007, A Identidade Bourne e só, o resto é tudo personagem mulher”, conclui Mayra.