No Oscar de 2015, ao receber o prêmio de melhor atriz coadjuvante, a atriz Patricia Arquette discursou pela igualdade de salários entre os gêneros. 

No mesmo ano, Jennifer Lawrence escreveu um texto “Why Do I Make Less Than My Male Co-Stars?” (Por que eu ganho menos que meus colegas homens?) questionando por que havia ganhado menos do que seus parceiros de cena do filme Trapaça (2013).

 

A diferença entre salários de homens e mulheres em Hollywood tem chamado a atenção de profissionais da área e especialistas na questão de gênero. Na lista da Forbes dos atores mais bem pagos de 2016, Dwayne Johnson aparece na primeira colocação com 64 milhões de dólares, aproximadamente 205 milhões de reais. Já a atriz mais bem paga do mundo, Jennifer Lawrence, possui um patrimônio de 46 milhões de dólares, algo em torno de 147 milhões de reais. Comparando os dois artistas, constatamos que Jennifer possui 58 milhões de reais a menos que Johnson.

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Esse cenário não é exclusivo dos Estados Unidos. No caso do Brasil, as mulheres também são minoria na direção e roteirização das produções. De acordo com uma pesquisa realizada pela Agência Nacional do Cinema – Ancine, em 2015, 19% dos filmes lançados foram dirigidos por mulheres e 23% tiveram participação feminina no roteiro.

“É como se fosse o apartheid brasileiro, a plaquinha ‘proibido entrar negros’ não existe, mas no restaurante só tem branco”, afirma a diretora Vera Egito, do filme Amores Urbanos (2016). “Não é como se fosse mais difícil para a mulher dirigir ou como se tivesse a plaquinha ‘mulheres não dirijam’, é o mecanismo que faz com que isso não aconteça.”


Problema estrutural

Para Vera, a pouca presença das mulheres no cinema reflete um problema que começa mais embaixo: na educação dada a meninos e meninas. “Esse sistema social, de a mulher ter que falar baixo, não poder falar palavrão, não poder brigar… Isso é uma coisa que você ouve desde pequena, mas como você vai dirigir uma equipe de cem pessoas sendo boazinha, fofa e falando baixinho? Você tem que ser dura, firme, ter segurança de falar que não é isso, mas aquilo.”

No entanto, alguns números provam que as mulheres têm conquistado, aos poucos, mais espaço na sociedade. De acordo com a pesquisa “International business report (IBR) – Women in business”, realizada pela Grant Thornton, o número de empresas no Brasil sem mulheres em cargos de liderança caiu de 57% para 53%. Mas esse aumento ainda não foi suficiente para chegar à média global de 24% de cargos de alto escalão ocupados por mulheres – no Brasil, esse número é de 19%.

maluVocê vê as vezes mulheres abandonando a profissão porque como ela vai ser produtora de linha, produtora de set, tendo que trabalhar 14 horas com um filho? Ela poderia ter isso se o marido dividisse as tarefas, não criar sozinha – Malu Andrade, coordenadora da SPCine 

Para Julia Rezende, diretora e roteirista de Meu Passado Me Condena (2013), esse aumento da presença feminina também está se refletindo no cinema. “O cinema está espelhando o que está acontecendo na vida e na sociedade. A mulher vem ocupando mais espaço em todos os outros setores e o mesmo está acontecendo no cinema. É um processo longo e lento, mas que está acontecendo na sociedade inteira e o cinema não é diferente”.


Participação

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De acordo com os dados levantados pela Superintendência de Análise de Mercado da Ancine, em 2015, 41% das obras tiveram produção executiva exclusivamente feminina. Ao mesmo tempo, segundo o artigo Presença feminina no cinema brasileiro – por que estamos tão longe?, de Paula Alves, José Eustáquio Diniz Alves e Denise Britz do Nascimento Silva, comparando com áreas como direção, roteiro e fotografia, a produção executiva é a que, entre os anos de 2001 e 2010, teve o maior número de mulheres atuantes.

Adriana Dutra, diretora e cofundadora do Brazilian Film Festival of Miami (Festival de Filmes Brasileiros de Miami), explica que esse fato tem raízes históricas. “As mulheres dos anos 1980 eram as produtoras, porque normalmente era a esposa do diretor que produzia o filme do marido, ou seja, elas conseguiam o dinheiro, elas organizavam a casa e ajudavam o marido e o filho, que eram os diretores.”

julia-1Eu acho que nos dados, de fato, não dá nem para comparar o espaço de mercado dos homens e das mulheres, mas eu trabalho há dez anos com cinema e eu nunca senti que eu estivesse no set com poucas mulheres – Julia Rezende, diretora e roteirista

Mayra Lucas, produtora dos filmes Loucas pra Casar (2015) e Vai Que Cola (2015), diz que o fato de o mercado já estar habituado a ter mulheres produtoras faz com que ela “seja ouvida”. “Você chega para conversar com o distribuidor e dono da sala de cinema e ele não acha você menor porque é mulher. Ele não julga sua capacidade, porque já veio uma geração, ele está acostumado com esse papel da mulher como produtora criativa”, conta.

Mas se você pensa que as mulheres escolhem o papel de produtoras porque é “mais fácil”, está enganado. A atriz Rita Carelli, do filme Permanência (2014), desmistifica esse pensamento: “Eu acho que produção é uma loucura. É uma dedicação suprema. Eu acho que não é uma questão de conciliar tempo de trabalho e família, não, eu acho que é reflexo de um espaço de trabalho historicamente conquistado”.

E se a presença feminina nas outras áreas, como direção e roteiro, ainda é pequena, Julia Rezende, diz que, pela sua experiência, não acha dificuldade em encontrar mulheres para formar sua equipe.

“Eu acho que nos dados, de fato, não dá nem para comparar o espaço de mercado dos homens e das mulheres, mas eu trabalho há dez anos com cinema e nunca senti que estivesse no set com poucas mulheres. Acho que as únicas que realmente sofrem nesse espaço são as fotógrafas”, diz.


Trabalho de homem X Trabalho de mulher

A ideia de que mulher não aguentaria o peso dos equipamentos ainda está bastante presente: a área em que a presença feminina é menor é a de fotografia. De acordo com a pesquisa “O cinema brasileiro de 1961 a 2010 pela perspectiva de gênero”, de Paula Alves, apenas 3,2% dos filmes entre 2001 e 2010 tiveram presença feminina na fotografia.

Kátia Coelho, a primeira diretora de fotografia a dirigir um longa metragem, revela que o equipamento de filmagem era pesado, mas nunca foi um problema grande para ela. Hoje em dia, Kátia complementa que “os equipamentos não são mais pesados” e que esse ainda não deveria ser o foco principal quando se fala de mulheres trabalhando nos bastidores do cinema. 

Para Silvia Gangemi, assistente de câmera, além de os equipamentos de hoje estarem mais leves, essa visão de que as mulheres não aguentam o peso é equivocada. “Eu acho que um homem que fala isso é aquele que está distante da mulher, alguém que não está acostumado a ver na prática que ela dá conta. As mulheres são fortes, elas aguentam o tranco. Mas tem que malhar para ter esse suporte do corpo, porque é ele que carrega tudo”, explica.

veraÉ como se fosse o apartheid brasileiro, a plaquinha ‘proibido negros de entrar’ não existe, mas o restaurante só tem branco. Não é como se fosse mais difícil para a mulher dirigir ou como se tivesse a plaquinha ‘mulheres não dirijam’, é o mecanismo que faz com que isso não aconteça – Vera Egito, diretora

Malu Andrade, coordenadora do projeto de política de gênero do Spcine – iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura da capital paulista e do Governo do Estado de São Paulo – vê outros problemas que ajudam a explicar a diferença da participação feminina no cinema: “Elas reclamam muito sobre a questão técnica porque, às vezes, num set de filmagem, são 14, 15 horas diárias e algumas são mães, então é muito difícil. Às vezes, você vê mulheres abandonando a profissão porque como ela vai ser produtora de linha, produtora de set, tendo que trabalhar 14 horas com um filho? Ela poderia ter isso se o marido dividisse as tarefas, se ela não criasse sozinha”.

E apesar dessa visão da Malu, muitas profissionais não acreditam que o fato de ser mulher tenha atrapalhado a sua carreira, pelo contrário: “Sempre acreditei que iria fazer o que quisesse, inclusive um negócio que ninguém fazia: dirigir e produzir filmes. Crio minhas próprias oportunidades e ocupo o meu espaço. E no set, as funções são muito claras: o diretor é o diretor”, conta Tata Amaral, diretora de Um Céu de Estrelas (1996) e Antônia (2006), em uma entrevista para o IG, em 2013.

Mayra Lucas acredita que o aumento da participação da mulher, não só no cinema, mas em todos os setores da sociedade só irá trazer benefícios. “Eu acho que a sociedade tem muito a ganhar, sempre que você tá em um ambiente lidando com mulheres em instâncias decisórias tudo é mais rápido, mais fácil e menos apaixonado. As coisas fluem muito melhor”, conta.


Cotas – Saída? 

A discrepância entre filmes dirigidos por homens e mulheres é tanta que muitas pessoas do meio acham necessária a criação de cotas para firmar uma participação em peso de diretoras, produtoras e roteiristas no meio audiovisual. Na Austrália, por exemplo, esse processo já está prestes a acontecer. Em 2015, o Australia Director’s Guide declarou que acredita que o fundo federal e a própria organização deveriam disponibilizar 50% dos fundos para diretoras mulheres, assim dando oportunidades iguais às mulheres, que no mesmo ano, apenas foram responsáveis por 15% das direções cinematográficas na Austrália. 

O presidente da organização, Ray Argall, segundo a revista Variety, fez questão de mostrar a importância da medida: “A foco nas diretoras é porque, como elas são a força por trás do filme, elas podem fazer uma enorme diferença em reendereçar a desigualdade de gêneros na indústria. Na Suíça, conseguir uma cota de 50% para mulheres resultou em empregos para diretoras, roteiristas, atrizes e produtoras, além de outros cargos que despontaram dramaticamente pelo globo no espaço de dois anos.” 

Com tanto otimismo pelas medidas, fizemos a seguinte pergunta para as nossas entrevistas: “Você acha que cotas para as mulheres no cinema funcionariam aqui no Brasil?” Elas responderam: 

 

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