Quando alguém fala em uma princesa, as primeiras imagens que vêm a sua mente são de uma mulher branca, magra e de cabelos compridos? Se a resposta para essa pergunta for sim, é provável que você tenha acabado de reproduzir alguns estereótipos.

Mas o que seria um estereótipo? De acordo com o Dicionário Michaelis, o estereótipo é “uma imagem mental padronizada, tida coletivamente por um grupo, refletindo uma opinião demasiadamente simplificada, atitude afetiva ou juízo incriterioso a respeito de uma situação, acontecimento, pessoa, raça, classe ou grupo social”.

E não é só isso: segundo o livro Teoria da Comunicação – Ideias, Conceitos e Métodos, do pesquisador Luís Mauro Sá Martino, o estereótipo “explica o que está diante dos olhos, permitindo formulação rápida de estratégias de ação”. Ou seja, é bem aquele ditado de que a primeira impressão é a que conta. E isso vale, especialmente, para as vestimentas dos personagens, como a figurinista Alice Alves, de Crô – o Filme (2013), conta: “Você tem que fazer com que a pessoa que está assistindo ao filme entenda muito rápido o que está acontecendo”.

Já para Roberta Gregoli, especialista na questão de gênero no cinema, a desigualdade entre os gêneros em vários setores da sociedade ajuda a criar o estereótipo de “mulher-símbolo”. Calma que a gente explica: a “mulher-símbolo” é aquela que consegue penetrar em um setor composto por vários homens e se tornar uma representante do gênero e de uma “diversidade” dentro dele: “Por serem tão poucas, por não existir uma diversidade real, você aplica todas as críticas ao gênero e não à pessoa. Enquanto com homens, por ter muitos, quando um faz algo errado é porque ele é incompetente, e não os homens em geral”, conta.

A ativista de questões de gênero e raça Stephanie Ribeiro afirma que o cinema, ao alimentar determinados estereótipos, contribui para a manutenção de visões limitadas de alguns grupos sociais. “Se você perguntar para as pessoas como é uma pessoa negra, elas vão citar uma série de características físicas extremamente sexualizadas, vão citar características de caráter extremamente problemáticas – o malandro, a mulher faceira. As pessoas condensam os negros como se fossem uma coisa só”, diz.

Nem todo mundo concorda. A socióloga da USP Carla Bernava, especialista na questão de gênero e cinema, por exemplo, acredita que os estereótipos são necessários para a narrativa cinematográfica: “Acho complicado pensar em estereótipos só do lado positivo ou depreciativo. Estereótipo é uma palavra que carrega certo tipo de problema, acho que, em cinema, a gente precisa falar de convenções. Certos tipos de convenções, quando colocadas em relação a outras, criam uma hierarquia. Essas hierarquias, dentro de um filme, são cumpridas nas relações entre os personagens”.

Cada uma tem uma opinião, mas existem algumas características que, ao se tratar de tipos femininos no cinema, permanecem do mesmo jeito. Aproveite e confira mais, a seguir:


Manic Pixie Dream Girl

Imagine uma garota divertida, descolada e bonita. Ela é tão espírito livre que não se importa em largar tudo para ajudar o amado, ou potencial namorado, a realizar seus sonhos, provocando assim uma reviravolta eterna na vida do personagem principal.

Se essa descrição soou familiar, não tema. Você já deve ter visto e escutado arquétipos de mulheres assim na televisão e no cinema. Não acredita? Peguemos como exemplo o filme Desculpe o Transtorno (2016). Nele, conhecemos Eduardo, interpretado por Gregorio Duvivier, que luta contra um transtorno de personalidade múltipla enquanto se reveza entre o eixo Rio-São Paulo. Na terra do Pão de Açúcar ele conhece Bárbara, vivida por Clarice Falcão, uma moça descolada, engraçada e que faz de tudo, até viajar para São Paulo, para fazer com que o Eduardo se cure desse transtorno. Em entrevista ao Correio Popular, Clarice afirma que sua personagem, no início da trama, é uma típica manic pixie dream girl.

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Desculpe o Transtorno (2016): Clarice Falcão contracena com Gregorio Duvivier

Mas o que seria uma manic pixie dream girl? Vamos explicar: a expressão foi criada pelo crítico de cinema Nathan Rabin ao falar sobre a personagem Claire Colburn, interpretada por Kirsten Dunst, no filme Tudo Acontece em Elizabethtown (2007). No artigo “The bataan death march of whimsy case file #1: Elizabethtown”, publicado em janeiro de 2007, ele define o que é uma MPDG:

A manic pixie dream girl existe apenas na imaginação fervorosa de escritores/diretores sensíveis para ensinar aos homens completamente sonhadores a encarar a vida e seus mistérios e aventuras. A garota MPDG é aquela que propõe tudo ou nada. O público ou quer casar com ela imediatamente, ou causar sérios danos corporais nela e em sua família.”

Para a produtora e CEO da Glaz Entretenimento, Mayra Lucas, esse estereótipo também é recorrente na própria sociedade e tem influência negativa na vida das meninas que assistem a ele: “Para mim, é só uma forma mais moderninha de perpetuar controle, simples assim. Essa menina tem esse comportamento, mas ela é sempre magrinha, usa saiazinha. Se ela tem um vestuário e gestos que não se enquadram no estereótipo externo da gatinha, aí ela é só o brother, a lésbica da turma. É algo muito cruel”.

Outra quase MPDG que segue essa lógica? Helena, interpretada por Alinne Moraes no filme O Homem do Futuro (2011). Ela se encaixa no estereótipo de manic pixie dream girl porque, além de linda e inteligente, ela estimula o personagem masculino a mudar o rumo de sua vida para melhor. E Helena não é só isso: de acordo com o crítico Javier Fuentes, do blog americano We Drink Your Milkshake!, ao longo do filme, ela vai ganhando seu próprio propósito: “O melhor em Helena é que ela deixa de ser um ponto do enredo do filme e se torna sua própria pessoa”.

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O Homem do Futuro (2011): Alinne Moraes vive a personagem Helena e Wagner Moura interpreta Zero

Além disso, também temos uma antítese da MPDG no filme Apenas o Fim (2009). A personagem feminina, interpretada por Erika Mader, resolve, de supetão, largar o namorado de anos, Tom, vivido por Gregorio Duvivier. A personagem de Erika era uma típica MPDG: a garota descolada e peculiar que se apaixona pelo nerd da história e tenta ajudá-lo a se tornar uma pessoa melhor. No entanto, ao longo do filme, ela luta contra esse rótulo e vira a protagonista de sua própria vida.

Mas a quebra do padrão parece não bastar para o próprio autor do termo, Nathan Rabin. Ele revelou, em um texto publicado na revista Salon em 2014, que se arrepende de cunhar o popular termo no artigo “I’m sorry for coining the phrase manic pixie dream girl”. Ele diz: “sinto-me profundamente estranho, se não envergonhado, de ter criado um clichê que tem sido usado incessantemente pela internet”. Para ele, há personagens que, em sua opinião, são injustamente tratadas como MPDGs. Como exemplo, ele cita Annie Hall, de Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977), que, segundo ele, é “uma personagem inesquecível e com nuances” e que “não faria sentido existir apenas para alegrar o personagem masculino”.


Femme fatale

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Alguns exemplos de femme fatales famosas do cinema no Brasil e no mundo

Phyllis Dietrichson é uma mulher bonita, inteligente e ambiciosa. Casada com Mr. Dietrichson, a protagonista do filme Pacto de Sangue (1944) convence seu amante, o agente de seguros Walter Neff, a bolar um plano para matar o marido dela e ficar com o dinheiro do seguro de vida.

No universo cinematográfico, Phyllis pode ser descrita como uma femme fatale, uma mulher que usa seu charme e sua beleza para seduzir os homens e levá-los à ruína. De acordo com o livro A Dictionary of Film Studies, de Annette Kuhn e Guy Westwell, as femmes fatales tiveram seu auge no cinema noir – décadas de 1940 e 1950 – em filmes como Relíquia Macabra (1941) e Gilda (1946). Embora muitos estudiosos exaltem a autonomia sexual das femmes, Westwell ressalta que elas também costumam ser muito criticadas por pessoas que veem nelas a perpetuação de estereótipos femininos negativos. Para este último grupo, mulheres como Phyllis representam “conceitos culturais fixos de noções de feminilidade e sexualidade feminina”.

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Apesar de as femmes fatales serem frequentemente associadas ao cinema noir americano do século 20, há quem defenda que elas estão presentes em produções do mundo todo, em diferentes épocas. No livro The “Femme” Fatale in Brazilian Cinema: Challenging Hollywood Norms, Antônio Márcio da Silva afirma que “apesar de a femme americana ter se tornado ‘modelo’ de femme fatale no cinema (…), a presença de outras femmes em filmes noir e neo-noir joga luz a questões que vão além do contexto americano por causa de suas características transnacionais, como crise masculina e desintegrações sociais/pessoais”.

Silva cita como exemplo de femme fatale não hollywoodiana a personagem Xica da Silva, do filme produzido no Brasil, em 1976. Na história, Xica (Zezé Motta) é uma escrava negra que, graças a suas habilidades sexuais, conquista a atenção do contratador português João Fernandes. Encantado com a jovem, ele começa a presenteá-la com roupas, construções imponentes e até com uma carta de alforria. No entanto, não demora muito para que a relação entre os dois seja denunciada para a coroa portuguesa, que obriga João Fernandes a voltar para Portugal. Outro exemplo desse estereótipo é a personagem Gracinha de Medeiros, vivida por Christine Fernandes, no filme Os Caras de Pau em o Misterioso Roubo do Anel (2015). Linda e rica, ela usa de todo seu charme para conquistar os dois amigos e fazer com que eles façam qualquer coisa por ela. 

Na opinião da socióloga Thais Lassali, mestre em antropologia social pela Unicamp, sob a óptica do empoderamento feminino, Xica é uma personagem ambígua. “É inegável a importância da personagem como símbolo de uma mulher que conhece e domina a própria sexualidade”, afirma. “Xica é dona do próprio corpo não apenas porque foi liberta da condição de escrava, mas porque sabe usá-lo para melhorar a própria vida. É claro que esse uso do corpo caminha na navalha entre liberdade própria e dominação masculina. As ‘Xicas’, personagem e filme, não deixam de estar em uma sociedade que enxerga a mulher como ser completo apenas quando se relaciona com um homem”.


Donzela em perigo

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Hércules (1997)

Era uma vez uma princesa chamada Branca de Neve. Após comer uma maçã envenenada, ela cai em um sono profundo. Mas, quando tudo parecia perdido, eis que aparece um príncipe que a desperta com um beijo e a leva para viver com ele em seu palácio.

Histórias de mulheres que precisam ser resgatadas por um homem são recorrentes no cinema, como o filme Princesa Prometida (1987) já nos mostrou. Aliás, em muitos filmes da Disney, a maior empresa de animação do mundo, a mocinha só consegue o tão desejado final feliz após um homem livrá-la das forças do mal – que podem ser desde uma madrasta diabólica, como é o caso de Cinderella (1950), até uma bruxa do mar, como em A Pequena Sereia (1989).

No artigo “Papéis de gênero na animação: como a Disney está redefinindo a princesa moderna”, Juliana Garabedian, da James Madison University, discute como a empresa foi, ao longo dos anos, dando mais independência para suas personagens femininas.

De acordo com Garabedian, princesas como as de Branca de Neve e os Sete Anões (1937), Cinderella (1950) e A Bela Adormecida (1959) eram reflexos de um tempo em que apenas 39% das mulheres trabalhavam fora de casa. Nesse sentido, a maneira como os papéis de homens e mulheres eram divididos na época explicaria por que a menina de pele branca como a neve tem a ajuda dos anões e do príncipe para sobreviver.

Com o passar do tempo, as mulheres foram conquistando mais independência, e as princesas da Disney foram, aos poucos, refletindo as mudanças da sociedade ocidental. Garabedian diz que, entre 1989, com o lançamento de A Pequena Sereia, e 2010, com a estreia de Enrolados, a empresa passou por um período de transição. As princesas desse período – Bela, de A Bela e a Fera (1991), Tiana, de A Princesa e o Sapo (2009) etc. – ao mesmo tempo que tentavam se livrar das amarras de gênero, sendo retratadas como mulheres cheias de ambições e coragem, acabavam, ao fim, caindo no papel de princesa doce ou esposa fiel.

Essa tendência só viria a mudar, segundo Garabedian, com o lançamento de filmes como Valente (2012) e Frozen (2013). Em ambos os casos, as protagonistas são retratadas como mulheres fortes, que não dependem de homens para sobreviver, ao contrário das princesas das outras gerações.

Para a socióloga Michele Escoura, autora da tese “Girando entre princesas: performances e contornos de gênero em uma etnografia com crianças”, embora a Disney tenha avançado em alguns aspectos, ainda há questões a ser levantadas. “Acho que tivemos um marco de uma nova leva de personagens Disney, de protagonistas femininas que de fato têm uma reconfiguração do final feliz e a centralidade do amor romântico sai de cena e outras relações são priorizadas. Mas não há uma ruptura do padrão estético. Tanto a protagonista de Valente como as personagens de Frozen são brancas. A Merida [de Valente] é ruiva com cabelo cacheado. Ela tem um padrão estético evidentemente europeu. Embora seja um cabelo cacheado, não é um cabelo cacheado de origem africana. A Elsa [de Frozen] é loira, tem todo esse repertório do cabelo comprido, liso, a relação com os vestidos… São meninas muito jovens, magras”, analisa.


Princípio Smurfette

Uma mulher e vários homens. Na maior parte das vezes, essa mulher não fala muito, segue as ordens e ajuda os colegas a chegar à vitória. Vários filmes seguem essa temática e todos eles sofrem do Princípio de Smurfette.

E sim, a lógica desse princípio vem do programa de televisão The Smurfs. O enredo do show é simples: um grupo de criaturas azuis que vive em cogumelos e foge de um feiticeiro do mal que quer destruí-los. E no meio de vários smurfs existe apenas uma smurf mulher, chamada simplesmente de Smurfette.

A escritora da revista The Nation Katha Pollitt, criadora do princípio em sua coluna no jornal The New York Times, em 1991, afirma que a falta de complexidade das personagens femininas é uma das características principais do seu princípio e dos filmes: “Você vê isso em todos os lugares, na televisão, em filmes. Em Spotlight – Segredos Revelados (2015), por exemplo, tem um monte de repórteres do sexo masculino e apenas uma repórter feminina, que é a única mulher proeminente. E como outros demonstraram em muitos filmes, você pode remover a personagem feminina completamente e nada mudaria”.

Aliás, podemos perceber isso na série Smurfs, e como a Smurfette passou por várias transformações! No começo, a personagem, feita para cumprir o plano maligno de Gargamel, tinha cabelo ralo, corpo reto. Mas, quando o Papai Smurf descobriu o plano, ele resolveu que ela deveria passar por uma transformação. Assim, a Smurfette ganhou cabelos loiros e longos e ficou mais próxima do ideal convencional de beleza americano. Para Katha, isso tem uma explicação: “As mulheres são um acessório em filmes majoritariamente masculinos e, na maioria das vezes, são definidas por suas relações com homens ou são particularizadas por sua feminilidade”.

Nos filmes brasileiros, também há personagens femininas que sofrem do Princípio de Smurfette. Na película Superpai (2015), estrelada por Danton Mello, a única mulher representada no filme é Júlia, interpretada por Dani Calabresa. Ela é representada como sensual, divertida e parceira dos homens. O filme Vai Que Dá Certo (2013), por sua vez, mostra Jaqueline, vivida por Natália Lage, retratada, também, apenas por seu lado sensual.

E isso também acontece em filmes baseados em clássicos da literatura brasileira, como é o caso de Capitães da Areia (2011). Nele, a personagem Dora é a única menina que participa do grupo de marginais. Além de despertar desejo entre os garotos de rua, enfatizando a sensualidade da mulher, ela age como mãe, cuidando das necessidades deles e lhes dando o carinho que nunca tiveram.