Será que é possível notar diferença entre um filme feito por uma mulher e um filme feito por um homem? O senso comum diz que as mulheres são mais “sensíveis” do que os homens, por isso, muitas vezes, elas ficam restritas a determinadas funções na sociedade e no cinema. 

De acordo com a pesquisa do IBGE “O cinema brasileiro de 1961 a 2010 pela perspectiva de gênero”, de Paula Alves, um dos gêneros cinematográficos com mais participação da mulher atrás das câmeras são filmes com temática adolescente – romances ou comédias – enquanto mais de 90% dos filmes de ação e aventura foram dirigidos por homens. Mas será que existe mesmo esse tal “olhar feminino”?

O sociólogo Carlos Eduardo Fialho, especialista na área de cinema, afirma na tese “Existe o olhar feminino no cinema brasileiro contemporâneo?” que as produções dirigidas ou roteirizadas por mulheres, a partir da década de 1990, são muito plurais. As diretoras representavam quase 17% da produção da época, mas, segundo ele, as narrativas, temáticas e estéticas eram muito diferentes entre si, não sendo possível identificar uma unidade.

Ele ainda diz que filmes como Como Ser Solteiro (1998), de Rosane Svartman, e Um Céu de Estrelas (1996), de Tata Amaral, têm diferenças na forma de construção da narrativa. O primeiro repete estereótipos, já que divide o amor romântico, representado pelas personagens femininas, e as relações transitórias, sem apego, legadas aos personagens masculinos.

luisaOs diretores homens são vistos como indivíduos, enquanto as diretoras mulheres são muitas vezes vistas como um bloco. Isso é muito ruim. Precisamos ver as mulheres como profissionais individuais, com talentos completamente diferentes – Luisa Pécora, jornalista

Para Malu Andrade, coordenadora do projeto de política de gênero do Spcine – iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura da capital paulista e do Governo do Estado de São Paulo – essa reprodução de estereótipos por mulheres está ligada a uma lógica de mercado. “Talvez seja uma coisa em que elas nem pararam para pensar. Talvez seja porque vende, esse padrão de relacionamento, esse perfil de mulher vende, então reproduz. Uma mulher me perguntou: ‘Ah, será que uma mulher seria capaz de fazer um filme de violência?’ Seria. O Guerra ao Terror (2008), que é um ótimo filme, foi dirigido por Kathryn Bigelow”, afirma.

Já o filme de Tata Amaral, para o sociólogo Carlos Fialho, coloca a libertação feminina à frente na narrativa. A personagem tem relacionamentos abusivos, tanto com a mãe como com o namorado. O ponto de vista da personagem é sempre colocado em primeiro plano, como maneira de mostrar a luta pela sua independência. 

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Um céu de estrelas (1996)


A questão do gênero no cinema

Apesar de a condição da mulher no cinema, seja como atriz, diretora ou produtora, ainda não ser das mais ideais, uma pesquisa feita em 2015 prova que a participação de mulheres como protagonistas de filme está aumentando cada vez mais. O levantamento, chamado “It’s a man’s (celluloid) world: portrayals of female characters in the top 100 films of 2015” (“É um mundo (celuloide) masculino: retratos de personagens femininos nos 100 filmes de maior bilheteria de 2015”), mostra que 22% das produções hollywoodianas foram protagonizadas por mulheres naquele ano. No anterior, em 2014, a participação das mulheres não passara dos 12%. Um aumento e tanto!

No entanto, para Julia Zakia, diretora de filmes com temáticas ciganas, como Rio Cigano (2013) e Tarabatara (2007), isso ainda não representa uma quebra do “olhar masculino”, já que a mulher, em seu estado natural, ainda choca e muito. Julia relembra uma cena de Rio Cigano na qual a personagem Reka aparece com pelos embaixo do braço: “O pelo é o pelo ali na cena, mas ele significa muito mais coisas, todos aqueles procedimentos estéticos, e toda essa noia com um padrão de beleza e de higiene que é uma coisa bizarra. Então ela tem auxílio de um médico, a Condessa e mais um ajudante, e é uma cena de tortura. A mulher, em seu estado natural, como uma loba, sendo tudo que é e quiser ser, incomoda.”

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Rio Cigano (2013)

E olha que essa “diferença de olhar” já rendeu várias teorias. Uma delas foi criada pela autora Ann Kaplan, no artigo “Feminist film theory” (“Teoria feminista de filme”), que explica que o chamado “olhar masculino” é sempre o predominante. A socióloga Danielle Tega, no livro Mulheres em Foco – Construções Cinematográficas Brasileiras da Participação Política Feminina, explica mais sobre isso: “As mulheres são representadas de formas silenciosas ou frustradas; sua vida é sacrificada quando fazem qualquer atrevimento; e perdem características tradicionais (bondade, humanidade, maternidade) quando estão no controle da ação, adotando o papel ‘masculino’”.

adrianaO homem fica mais na autoafirmação. Ele mesmo corta seu olhar, sua sensibilidade para não se fragilizar diante dos outros homens e isso faz com que o exercício da sensibilidade fique mais raso – Adriana Dutra, diretora

Já no artigo “Prazer visual e cinema narrativo de 1983”, a teórica feminista Laura Mulvey diz que, no cinema e na sociedade, “o prazer no olhar foi dividido entre ativo/masculino e passivo/feminino”. Mas Danielle não acredita nessa oposição binária, já que isso dificulta uma reflexão mais complexa sobre ser masculino/feminino: “Não são padrões estanques, mas convenções que mudam no decorrer de tempos e espaços, e que fazem parte de lutas e resistências”.

Por falar em mudanças ao longo do tempo, para a psicóloga Maria Lúcia Homem, nos últimos anos, o cinema, de maneira geral, tem evoluído bastante nesse sentido. Para ela, a sociedade está começando a entender que a mulher é um ser pensante e mudando a predominância do “olhar masculino”: “A inteligência, a capacidade de pensamento, é quase um recente atributo do feminino, é como se isso pudesse surpreender”, afirma.

Teorias Feministas no Cinema


Sensibilidade: característica das mulheres?

Seria a sensibilidade “coisa de mulher”? No clássico O Segundo Sexo, a filósofa Simone de Beauvoir critica a ideia de que determinadas características são naturalmente femininas. Para ela, “ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino”.

Kátia Coelho, diretora de fotografia de filmes como O Casamento de Louise (2000) e A Via Láctea (2007), pensa que a relação do olhar do filme tem tudo a ver com a direção que está sendo proposta: “Eu acho que existe o seu próprio olhar. O seu próprio olhar está muito forte no trabalho que você está fazendo. Como a concepção vem do roteiro e passa por um diretor, que é com quem você conversa a fotografia, coloca as suas questões em relação à cor, luz e tudo mais…esse olhar é feminino, se o filme é feminino.”. 

Já a diretora Adriana Dutra acredita que tanto homens como mulheres são sensíveis, mas ressalta que é o homem que se prejudica mais quando essa característica é apenas atribuída à mulher. “O homem fica mais na autoafirmação. Ele mesmo corta seu olhar, sua sensibilidade, para não se fragilizar diante dos outros homens, e isso faz com que o exercício da sensibilidade fique mais raso. Não que todos os homens sejam assim, mas existe, sim, uma sensibilidade mais aguçada, um olhar mais poético, um carinho maior porque a mulher trabalha com isso com mais facilidade”, defende Adriana.

No entanto, para Luísa Pécora, jornalista e criadora do site Mulher no Cinema, esse estereótipo, na maioria das vezes, afeta mais a mulher, que fica restrita apenas a algumas áreas e gêneros do cinema: “Um dos maiores desafios para as diretoras, principalmente em Hollywood, é convencer os estúdios de que elas podem fazer qualquer coisa. Resiste, ainda, a ideia de que mulheres são mais adequadas para dramas, romances e documentários – que o tal ‘olhar feminino’ não serve para um filme de ação, por exemplo”.

Essa relação entre temperamento e sexo, aliás, é estabelecida desde a juventude, de acordo com Beauvoir. Ela defende que, quando crianças, meninos e meninas têm as mesmas características, mas que, em virtude de pressões sociais, as meninas são estimuladas a se comportar de determinada forma. “Não é porque misteriosos instintos a destinem imediatamente à passividade, ao coquetismo, à maternidade: é porque a intervenção de outrem na vida da criança é quase original e, desde seus primeiros anos, sua vocação lhe é imperiosamente insuflada”, afirma.

mariaA inteligência, a capacidade de pensamento, é quase um recente atributo do feminino, é como se isso pudesse surpreender – Maria Lúcia Homem, psicanalista 

E não é só isso: para algumas pessoas, certas áreas do cinema acabam se beneficiando desse estereótipo. A figurinista Alice Alves, que trabalhou em produções como Crô – O Filme (2013) e Serra Pelada (2013), acredita que a mulher tem mais facilidade em áreas que envolvem criatividade: “A mulher é mais sensível do que o homem. Você precisa pensar com a roupa, tem a psicologia para vestir o ator. Figurino não é só a roupa”. Outra que concorda é Silvia Gangemi, assistente de câmera do filme Um Homem Só (2016), que diz que as atrizes têm mais “afinidade” quando existe uma mulher por trás das câmeras.

Mas nem todas pensam assim! Luísa Pécora, por exemplo, critica essa visão unânime de como as mulheres são vistas no cinema e defende que a mulher não é só delicada, ela pode ser várias coisas: “Falar em perspectiva feminina sugere que só existe uma perspectiva feminina, o que não é verdade. É raro ouvir falar nas características do cinema masculino. Os diretores homens são vistos como indivíduos, enquanto as diretoras mulheres são, muitas vezes, vistas como um bloco. Isso é muito ruim. Precisamos ver as mulheres como profissionais individuais, com talentos completamente diferentes”.

A especialista em questão de gênero no cinema Roberta Gregoli acredita que essa questão é controversa e não tem uma resposta certa. Para ela, o importante é a participação das mulheres no cinema. “Acho que o mais interessante é ter mulheres produzindo conteúdo – e não só conteúdo de ‘mulheres’, como conteúdo de ‘homens’ também. Não porque necessariamente ela vai ter uma visão feminina – eu nem gosto muito disso, como se existisse uma essência feminina que paira nas mulheres. Mas para ter uma diversidade mesmo, de quem conta a história, como conta.”