Imagine a seguinte cena: um casal de namorados vai a uma festa. Chegando lá, a mulher começa a conversar com um homem que acabou de conhecer. Ao ver os dois batendo papo, o namorado se irrita e começa a agredir a mulher verbal e fisicamente. A passagem retrata o que chamamos de relacionamento abusivo, uma relação em que um dos membros age de maneira violenta com seu parceiro.

No cinema, há diversos filmes que contam a história de personagens que sofrem com vários tipos de relacionamento abusivo: humilhações constantes, agressão física e estupro. Alguns exemplos são Dormindo com o Inimigo, estrelado por Julia Roberts em 1991, e Nunca Mais, que retrata outro casamento abusivo, mas dessa vez a protagonista é vivida por Jennifer Lopez. 

Para Bianca Cardoso, do Blogueiras Feministas, os cineastas devem tomar um cuidado especial na hora de retratar um relacionamento abusivo, já que os filmes podem ter grande impacto na vida das pessoas. “Aprendemos por meio das relações com as pessoas e por aquilo que vemos. Se muitos filmes mostram um relacionamento abusivo como algo necessário na vida de uma mulher, como algo mais importante do que ficar solteira, como ela sendo a única pessoa capaz de mudar aquele homem, estamos ensinando as mulheres que elas devem aceitar esse tipo de relação. A cultura ajuda na naturalização da violência contra a mulher”, conclui Bianca.

Já para Maria Lúcia Homem, psicóloga especialista em cultura, a relação de dominação não necessariamente tem um viés sexista, sendo que uma mulher também pode cumprir o papel de dominadora. “É como se nós tivéssemos funções muito infantis, muito arcaicas, que querem que exista um chefe, um homem ou uma mulher dominadora”, afirma.

Ela explica que, de certa forma, isso pode ser explicado na relação que o público tem com as estrelas de cinema: “Nós observamos em vários filmes de massa a lógica da celebridade, do ícone, do pop star – eu adoro essa expressão, “aquele que conduz o povo” – e nós temos narrativas que vão nessa direção há anos.”


Cenas de estupro

Um levantamento feito em 2011, pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada –Ipea, mostrou que 88,5% das vítimas de estupro eram mulheres. No caso de vítimas com idade adulta, 60% dos agressores eram desconhecidos, 15% eram amigos ou conhecidos e 9% eram cônjuges.

Diante desses números, eis que surge a questão: o cinema, ao mostrar cenas de estupro, está ajudando a debater o assunto ou está estimulando a cultura da violência?

No livro Public Rape: Representing Violation in Fiction and Film, a autora Tanya Horeck diz que muitas vezes essa discussão não foca no aspecto mais crucial das representações de violência sexual. “Em vez de tentar refutar ou provar que uma representação de estupro é a causa de um ‘estupro real’, nós precisamos pensar em como a representação é parte do estupro. Reconhecer que não há uma relação simples entre assistir à representação de um estupro e cometer um não significa dizer que não exista relação de espécie alguma”, afirma.

Nesse sentido, para muitas defensoras dos direitos femininos, as cenas de estupro devem ser feitas de modo a mostrar como aquele ato impacta de maneira profunda a vida da vítima. A jornalista Jada Yuan, por exemplo, apontou essa questão em seu artigo “Orange Is the New Black is the only TV show that understands rape” (“Orange Is the New Black é a única série que entende o estupro”). Nele, ela discute como algumas séries de TV tratam de forma superficial as passagens com estupro, retratando os abusos como acontecimentos banais, ofuscados por outras partes da narrativa.

Além de debater o tema, no texto, Yuan também sugere a criação do Pennsatucky Test, um teste para avaliar o desempenho de uma cena de estupro. Em entrevista ao Close Nelas, ela afirma que, apesar do artigo focar no universo das séries, a banalização das agressões e do relacionamento abusivo contra a mulher também pode ser vista no cinema: “A cultura pop tem o dever de mostrar o estupro como uma atrocidade, um ato de violência profunda que afeta a vida dos sobreviventes, algo que não é apenas um ponto qualquer do roteiro. Não é algo que acontece e é esquecido, é um evento com um impacto duradouro”, afirma.

Cena final de Irreversível (2002)

Ela ainda cita como um exemplo de cena ruim de estupro uma passagem do filme Irreversível, de 2002. Filmado por Gaspar Noé, a película conta a história de Alex, uma mulher que é brutalmente agredida e violentada e tem flashbacks para abordar mais duas histórias, todas associadas à vingança.

Para Jada, o filme apenas revela o acontecimento e não como Alex lida com esse monstruoso evento: “Mostra o rosto de Monica Bellucci enquanto batem nela, e esse estranho fica por trás dela durante 11 minutos, mas de um modo perversamente erótico, e como o filme não é em ordem cronológica, nós não concluímos sobre o que aconteceu ou se houve alguma vingança”.

Na opinião da blogueira feminista Stephanie Ribeiro, o cinema poderia alertar os espectadores antes de uma cena de estupro. A ideia, segundo ela, é fazer com que a pessoa que está assistindo se prepare para o que virá a seguir: “De alguma forma você tem que avisar e sinalizar que um estupro vai acontecer daqui a um minuto ou dois minutos, ou que o seu filme tem estupro em determinada cena. Vai parecer que você está avisando a pessoa, dando um spoiler, mas esse mecanismo permite que uma vítima de estupro se sinta respeitada”.


3 Filmes com relacionamentos abusivos

A jornalista e roteirista Helena Bertho, da revista AzMina, em entrevista ao Close Nelas, falou um pouco sobre os filmes que, para ela, retratam relacionamento abusivo.

1) Ciúmes excessivo

“O primeiro que me vem à cabeça é a saga Crepúsculo. Edward o tempo todo demonstra ciúmes e disfarça isso com o pretexto de que está protegendo a amada. Ele isola Bella de todos, impedindo-a de ter contato com outras pessoas, principalmente o Jacob, que seria seu rival. Ele a segue sem avisar e até sabota seu carro. E o pior é que ela não percebe. Em uma cena em que ela é atacada em outra cidade, ele a salva de surpresa e, ao invés de ficar em choque com o fato de que ele a seguiu, ela fica grata”. 

Crepúsculo (2008)

2) Abuso psicológico

Acho que um bom exemplo de abuso psicológico é Como Se Fosse a Primeira Vez (2004). Basicamente, o grande final romântico do filme se baseia em o personagem masculino manter a Drew Barrymore com ele. Ela perde a memória todo dia. De manhã, a mocinha acorda sem memória e ele mostra um vídeo com um recorte fofo da história dos dois. Ela então percebe que está presa em um navio com ele – e com filhos ainda. Ele manipula a memória dela!”.

Como se Fosse a Primeira Vez (2004)

3)  Violência dentro de casa

“Preciosa (2009) mostra a violência doméstica vindo dos pais e não do parceiro. E mais que isso: vindo de uma mulher também. Enquanto a mãe é abusiva psicologicamente com a protagonista, colocando ela para baixo, falando que ela não é nada, que ninguém a quer; o pai abusa sexualmente da menina e até a engravida. Mas o filme não romantiza nada disso, muito pelo contrário.”

Preciosa (2009)