A falta de personagens femininas ou a falta de profundidade daquelas que estão nas telas têm chamado a atenção de algumas pessoas dentro do mercado cinematográfico. Os testes para analisar a representatividade sobre as questões das mulheres são um mecanismo que prova essa preocupação. Eles têm como objetivo criar uma análise simples para evidenciar um problema complexo e estrutural. E partem de uma questão que, nos dias de hoje, deve estar passando na cabeça de muitas pessoas: como identificar se um filme é sexista ou não? Com a intenção de dar uma resposta para a essa pergunta, foram criados testes para verificar como as personagens femininas são descritas e representadas no cinema. 


Um pouquinho sobre cada um…

Teste Bechdel

O mais conhecido dos testes apareceu pela primeira vez em 1985 em uma série de quadrinhos chamada Dykes to Watch Out For, da cartunista norte-americana Alison Bechdel. Em uma das tiras, uma mulher convida uma amiga para ir ao cinema. A colega, então, responde que só assiste a filmes que contemplem três requisitos:

  1.      Possuir duas personagens femininas nomeadas
  2.      As duas personagens conversam entre si
  3.      A conversa não gira em torno de homens

A tira fez tanto sucesso que até hoje os três critérios da personagem são utilizados para avaliar a representatividade feminina nas produções cinematográficas. Em abril de 2014, o site FiveThirtyEight, especializado em análises estatísticas, fez  um estudo que consistia em aplicar o teste Bechdel em 1615 longas hollywoodianos lançados entre 1990 e 2013. A partir dos dados levantados, a análise tinha por objetivo estabelecer uma relação entre bilheteria, orçamento e presença de personagens femininos nos filmes selecionados.

Do ponto de vista financeiro, o estudo provou que filmes que passam no teste Bechdel podem ter faturamentos maiores do que filmes que não passam. Enquanto as produções que fracassaram no teste tiveram um retorno médio de 2,45 dólares por dólar gasto, os longas que contemplavam os requisitos arrecadaram, em média, 2,68 dólares para cada dólar gasto. 

Além disso,  o levantamento também mostrou que, em geral,  filmes que passam no teste costumam ter orçamentos 35% menores do que longas que não passam.  A média de capital investido em um filme que não passa é de mais de 48 milhões de dólares, enquanto a de um filme que passa é de pouco mais de 31 milhões de dólares.

Um estudo feito pelo site Polygraph, “Hollywood’s gender divide and its effect on films” (Divisão de gênero em Hollywood e o efeito disso nos filmes) relacionou a participação das mulheres nos roteiros com o teste. Os pesquisadores analisaram os 200 filmes com maiores bilheterias em Hollywood entre 1995 e 2015 e descobriram que, quando todos os roteiristas são homens, 50% dos filmes não passam no teste; ao adicionar uma mulher à equipe, esse número cai para um terço.

Para Mayra Lucas, produtora de filmes como Loucas pra Casar (2015) e Odeio o Dia dos Namorados (2013), o teste de Bechdel é um mecanismo útil, porém deve ser encarado como uma espécie de cartilha de orientação, e não como algo impositivo. “Acho que a principal função dele não é ser um sensor para saber se um filme passou ou não. Para mim, o teste de Bechdel é um guia. Eu não morro se o filme não passar no teste, mas, se o filme não tiver nenhum dos pontos, aquilo vai chamar a minha atenção. Por que sempre que há duas mulheres em cena, elas precisam estar falando sobre um homem?”


Teste DuVernay

duvernay

A crítica de cinema do jornal The New York Times Manohla Dargis sugeriu uma adição de recorte racial ao famoso teste de Bechdel. Ela nomeou o novo mecanismo de teste DuVernay, em homenagem à diretora Ava DuVernay, do filme Selma (2014). Em Hollywood, Ava é uma das vozes mais importantes contra a falta de diversidade racial nos filmes da indústria cinematográfica norte-americana. O teste segue um padrão parecido com o de Bechdel, com três principais tópicos:

  • Precisa ter mais de um personagem de outra etnia que não a branca
  • Pelo menos dois desses personagens precisam conversar entre si
  • Essa conversa não pode girar em torno de um personagem branco

O teste DuVernay foi criado com o propósito de avaliar e mostrar que não necessariamente ter um personagem de outra etnia em um filme retrata a diversidade. A blogueira e ativista do movimento feminista negro Stephanie Ribeiro concorda com essa avaliação. “Esse estereótipo da mulher que não tem voz ativa em nada, que é um mero objeto para a narrativa do homem, acontece muito com os personagens negros. Em geral, eles são o amigo do personagem principal, eles geralmente morrem, têm falas que não são importantes ou que não têm relevância para o contexto. É sempre a empregada, a pessoa que serve o café. São usados para dizer que há representatividade, quando, na verdade, não há. É uma representatividade nula e influenciada.”

Stephanie ressalta que, além da análise racial, a questão de gênero também não pode ser deixada de lado.“Quando você não tem um feeling do racismo com recorte de gênero você pode até produzir personagens negros legais, mas e as mulheres negras? Você tem o papel de um negro que reproduz a lógica de um homem branco em um filme e a mulher negra é extremamente silenciada, objetificada. Eu só vejo isso sendo quebrado quando a gente tem produções de mulheres que entendam um pouco sobre questões de gênero”.


Teste Mako Mori

O teste surgiu como uma alternativa ao Bechdel. De acordo com o site The Daily Dot, especializado em notícias sobre a internet, o mecanismo foi criado após um artigo do Metro UK afirmar que o filme Círculo de Fogo (2013) era um exemplo de má representação feminina. No texto, o autor sustentava seu argumento dizendo que o longa não passava nos requisitos do teste Bechdel, já que a única mulher presente na história era a piloto de robôs Mako Mori.

O artigo teve uma grande repercussão entre os fãs de Círculo de Fogo, que usaram o Tumblr para criticar o texto. Para eles, o Bechdel não é um mecanismo adequado de avaliação, uma vez que não leva em consideração a personalidade forte e independente da personagem Mako.

No meio dessa discussão, uma usuária chamada Chaila propôs a criação de um novo método para avaliar a representação feminina nos filmes. No teste Mako Mori, como acabou sendo denominado, para ser “aprovadas”, as produções deveriam seguir três regras básicas:

  • Ter ao menos uma personagem feminina
  • Essa mulher precisa ter a sua própria narrativa
  • Essa narrativa não deve estar baseada em sustentar a história de um homem

De acordo com um artigo publicado no site norte americano The Atlantic, pela diretora e escritora de teatro Holly Derr, o teste Mako Mori, ao contrário do Bechdel, tem uma preocupação maior com a construção da personagem. “Esse teste é um jeito de determinar se a personagem é feminista – com isso não quero dizer que ela defenda a filosofia feminista, mas que é representada como um ser humano pleno – ao questionar se ela é um sujeito ou um objeto. Um sujeito tem sentimentos e desejos próprios que norteiam suas ações, enquanto uma mulher que foi objetificada age por influência dos outros”.

Apesar disso, Holly afirma que, para um filme ser considerado feminista, não basta passar nos testes de Bechdel ou Mako Mori, assim como o fato de não passar nos testes não deve ser encarado como um atestado de produção sexista. Segundo ela, os testes servem para refletir o modo como setores da sociedade estão sendo representados no cinema.

Além disso, Holly pontua que a interpretação do que faz um filme feminista parte da percepção de cada corrente do movimento feminista, já que não há uma resposta exata para essa questão.


“Uma tal de Jane”

Como você descreve uma personagem feminina? Na conta do Twitter @femscriptintros, o produtor Ross Putman procura mostrar para as pessoas a superficialidade das descrições das protagonistas nos roteiros hollywoodianos.

Toda vez que recebe um roteiro problemático, Putman posta a descrição trocando o nome original da personagem pelo pseudônimo Jane. A ideia é mostrar que, quando se trata de mulheres em cena, muitos roteiristas dão demasiada ênfase a aspectos físicos e deixam de lado aspectos da personalidade e do histórico do indivíduo.

Em março de 2016, por exemplo, Putman fez seis postagens de descrições de personagens em roteiros reais. Em todas elas, há algum tipo de referência à beleza física da mulher.

(Jane, 30 e poucos anos, tem uma beleza vívida e saudável, cabelo em um rabo de cavalo, rosto natural; é realmente sedutora, se não fosse o olhar assustado)

(Jane, 30 e poucos anos, uma latina atraente e forte, coloca algemas nele)

Para analisar se um roteiro “passa” no teste, é necessário fazer três perguntas:

1. A introdução do roteiro foca na caracterização física da personagem?

2. A personagem tem entre 20 anos e 30 anos?

3. A diferença de idade entre ela e seu parceiro é de mais de dez anos?


Teste Pennsatucky

Em julho de 2015, a escritora Jada Yuan publicou no site Vulture um texto intitulado “Orange Is The New Black Is the only tv shows that understands rape” (Orange Is The New Black é a única série que entende estupro). No ensaio, ela afirma que muitas séries pecam na hora de fazer cenas de estupro. Para Jada, de uma maneira geral, as passagens deixam de lado aspectos que seriam fundamentais para que pudessem contribuir de forma significativa com o debate sobre violação de direitos.

Com isso em vista, a escritora sugere a criação de uma espécie de teste Bechdel para cenas de estupro. A ideia é que, a partir de um trecho determinado, sejam feitas as seguintes perguntas:

  • O ponto de vista da vítima é mostrado?
  • A cena só tem o propósito de existir para o avanço do roteiro ou tem algum propósito para o personagem?
  • O resultado emocional é explorado?

Cenas de estupros, seja no cinema ou na televisão, costumam dividir opiniões. Há quem ache que as cenas não devam existir, enquanto outros acreditam que devam ser feitas, mas com alguns cuidados, como o teste de Jada propõe. Ela afirma: “Nós só podemos acabar com algo quando a gente vê. Os melhores filmes são aqueles que são como um espelho de nossa vida. Eles ampliam nossa realidade e nos dão um significado mais profundo de situações que talvez a gente não tenha vivido, mas, com as quais conseguimos criar empatia pelo personagem e sua história”. Os filmes que passam nesse teste? De acordo com Jada, os mostrados abaixo passam com louvor: 

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Qual o mais eficaz?

Ah, se fosse assim tão fácil…essa pergunta não tem resposta! Para a socióloga Danielle Tega, formada pela Universidade de Campinas (SP) e especialista na questão de gênero, feminismo e cinema, deve ser feita uma análise mais profunda para verificar se essa representação é realmente eficaz. “Podemos dizer em relação ao cinema ou à arte de modo geral: penso ser necessário realizar um exame que observe forma e conteúdo, aquilo que está manifesto, mas também o que está latente, esperando ser desvendado. Nem sempre as falas de um filme darão conta disso, nem sempre o enquadramento dará conta disso, nem sempre a presença de mulheres em cena dará conta disso. E essas diferentes perspectivas, entre outras tantas, devem ser levadas em consideração na análise de um filme”.

 Por isso, montamos o seguinte teste para isso. Vai lá e desafie-se!